O motel já está inserido na vida comum do brasileiro há quase 50 anos, e é algo rotineiro para muitas pessoas. Eles sempre existiram e estiveram ali para oferecer momentos íntimos especiais para os casais. Mas você já parou para pensar em como esse estabelecimento surgiu? Já pensou em como é ser dono de um motel e administrá-lo?

Neste texto contamos com relatos e curiosidades compartilhadas pelo paulistano Hélio Ribeiro. Como filho de moteleiro, ele cresceu indiretamente nesse ramo desde que veio ao mundo. Hoje, com 35 anos, completa quase 10 anos desde que começou a se envolver diretamente com o motel de sua família. Hélio viu de perto as diferentes nuances de tabus que existiam- e ainda existem- relacionados a sexualidade e, por essa razão, ele narra algumas histórias inusitadas e análises curiosas sob a perspectiva de alguém que vive tudo isso de perto por trabalhar nos bastidores do mercado de motéis.

Hélio Ribeiro- moteleiro/Arquivo Pessoal

Lembranças:

A primeira coisa que me lembro foi ao sair do motel da minha família quando tinha uns 7 anos de idade. Minha mãe dirigia o carro e, naqueles tempos, as crianças sentavam no banco da frente, sem cinto de segurança, sem implicações. Ela tinha ido a quitanda comprar laranjas para fazer suco e abastecer a cozinha do motel. Neste trajeto, um motorista aguardando o semáforo nos viu e gritou:

*Safada! Levando até menininho pro motel!

Minha mãe indignada gritou de volta:

*É meu filho!

E ele rebateu:

-Pior ainda!

Foi naquele instante que percebi que o comércio da minha família era diferente dos demais. Não importa se você está entrando ou saindo de um motel… todos pensam que você foi lá fazer sexo!

O contexto da vinda do motel para o Brasil:

Cresci na década de 80, período em que o Brasil saía do governo militar e iniciava uma nova jornada na democracia. Os ventos do catolicismo e do lobby, pela moral e os bons costumes, eram muito fortes e tudo era feito por debaixo dos panos mas, ao mesmo tempo, o Brasil ainda era a terra do carnaval, a terra de contrastes.

Foi nesse mesmo período que meus pais me explicaram a verdadeira função de um Motel. Originalmente, minha família começou a trabalhar com Drive-in: uma espécie de motel versão "faça dentro do próprio carro". Isso era, basicamente, garagens fechadas, como casinhas, construídas de tijolos aparentes, chamadas de box. Esses estabelecimentos se tornaram muito comuns no Brasil dos anos 70/80 e tiveram seu apogeu e declínio em um curto período de, não mais, que 30 anos.

Os casais chegavam no Drive-in e, no meu entendimento de criança, aquele ambiente só se tratava de um imenso estacionamento. Quando soube que era um lugar para namorar e passar um tempo em casal, pensei que não havia sentido ficar dentro do carro, em uma garagem escura, estacionados. Foi aí que vi um filme norte americano em que os Drive-in tinham cinemas ao ar livre e garçonetes de patins, assim, entendi que o negócio dos meus pais era nada mais do que uma cópia dos Drive-in dos Estados Unidos, só que com um  toque_ brasileiro.

Como que minha família entrou nesse ramo:

Sendo Drive-in ou, alguns anos depois, motel, nosso modelo de negócio era hospedar casais que buscavam um espaço privativo para fazer sexo. Desde casais jovens- que moravam com os pais- até amantes e recém divorciados que não tinham local ou condições de fazer sexo em casa.

Um dia perguntei como eles foram empreender neste ramo. Meus pais, de origem muito humilde, me disseram que eles eram empregados assalariados na juventude. Foi quando um amigo do meu pai, locatário de uma propriedade com essa finalidade, ofereceu o negócio para meus pais em troca das economias deles, passando o ponto com a garantia que o negócio seria mantido com as contas em dia. Foi dessa forma que meus pais tiveram a oportunidade de sair do trabalho informal para se transformarem em donos do próprio negócio.

Depois de décadas de muito trabalho, sem feriados, sem finais de semana e pouquíssimo tempo livre - comigo fazendo parte dos esforços - chegamos a ter dois motéis de médio porte na capital paulista.

 

Ser moteleiro (Expectativa x Realidade):

Trabalhar em motel, no imaginário comum das pessoas, é viver em uma atmosfera de sexo e luxúria quando, na verdade, é trabalhar em um comércio de operação complexa, com funcionamento 24 horas, nos 7 dias da semana. Quando me perguntam o que faço da vida, respondo sorrindo que vivo de amor! Ou que trabalho onde as pessoas se divertem! E este último lema já ouvi que também serve aos ginecologistas e urologistas.

A cozinha do motel chega a ser até mais complexa que a de um restaurante pois, fica aberta do café da manhã ao lanchinho noturno, sem pausa, e deve seguir todos os padrões da vigilância sanitária. A lavanderia própria do estabelecimento lava e desinfeta enxovais com o mesmo nível de trabalho de uma lavanderia hospitalar, sem falar na recorrente manutenção das caldeiras, aquecedores solares a gás, geradores e o, tão necessário, sistema de segurança.

A recepção e o núcleo das arrumadeiras também seguem rigorosos padrões e treinamentos. As recepcionistas têm quase a mesma função de um padre no confessionário, pois mantêm o sigilo absoluto dos frequentadores. A única diferença é que ao invés de mandar rezar ajoelhados, encaminham, mesmo, os casais ouagregados direto ao antro de perdição, que mais se adequa ao orçamento do momento.

As arrumadeiras, por sua vez, são multidisciplinares, fazem arranjos de cisnes a corações flechados usando lençóis com o mesmo domínio de um escultor. Tivemos uma arrumadeira que lia o futuro dos casais no amarrotado dos lençóis depois do sexo e, até, na espuma que sobrou sobre a água da banheira, e, quando perguntamos como era possível, ela disse que era só transferir a técnica de ler o futuro da borra de café que aprendeu na infância com a avó. Tempos depois soube que ela era famosa entre alguns os clientes que, ao saírem do quarto, chamavam ela discretamente para liberar a suíte e ainda ganhava uma caixinha lendo o futuro do casal.

As arrumadeiras são também exímias investigadoras, encontram tarrachas de brincos entre os lençóis, pulseiras e até relógios esquecidos pelos clientes e, que sendo íntegras e treinadas ao máximo em virtude de confiança, devolvem tudo o que encontram.Como recompensa, os objetos não reclamados há mais de 90 dias vão para a nossa "caixa do amigo secreto" de natal, e os funcionários distribuem entre si tais objetos na comemoração. Já vi até troca de lingeries caras e caixas de charuto cubano.

Se engana quem pensa que quem trabalha em motel foi parar lá porque se identifica com o ambiente: metade das funcionárias são evangélicas e, as mais rigorosas, quando escutam um tapa ou gemido do quarto ao lado clamam palavras do tipo: "Está amarrado em nome de Jesus" ou "Sangue de Jesus tem poder" e o dia segue de um lado entre gritos e sussurros e, de outro, orações e clamores.

Da área administrativa ou do escritório, a última coisa que lembramos é que estamos em um motel (salvo exceções de um grito de prazer ou um gemido de gozo intenso vindo dos confins das alas das suítes, ecoando entre os sons das secadoras na lavanderia ou o tilintar das louças na pia cheia da cozinha). A verdadeira realidade de um administrador de motel é de estar navegando em um mar de problemas e desafios diários iguais a qualquer pequeno e médio empreendedor no Brasil. Vale lembrar, que temos como desafio extra, estar em funcionamento o ano inteiro, sem sábados, domingos e feriados.

Tem os clientes pitorescos, tem situações inusitadas, sim, mas em uma escala muito menor do que as pessoas supõem. Os motéis surgiram em um período de muita repressão. Era o momento em que as pessoas deveriam fazer as coisas em tom de fantasia ou, até, escondido. Hoje o sexo é muito mais natural e objetivo. A fantasia perdeu para a praticidade dos aplicativos e a repressão cedeu, em tempo, à liberdade de expressão.

Neste século, a única maneira dos motéis continuarem sendo uma alternativa relevante é, também, inovando nos serviços e simplificando a operação muito custosa nos moldes atuais. Um produto que atende a uma geração anterior precisa se adaptar e cativar a geração presente e de forma veloz como os tempos atuais.